A produção de alho na ilha Graciosa é secular e reconhecida pela sua altíssima qualidade, mas tarda em sair do território insular. Uma área muito pequena e pulverizada e a ausência de organização por parte dos produtores são os fatores críticos para o desenvolvimento e promoção de um produto com um inquestionável potencial.
A VIDA RURAL visitou o Festival do Alho, uma organização da Câmara do Comércio de Angra do Heroísmo (que congrega as associações empresariais das Ilhas Terceira, S. Jorge e Graciosa) e do Núcleo Empresarial da ilha Graciosa, que reuniu produtores, técnicos e especialistas gastronómicos para falar deste produto com características únicas.
Com uma área produtiva estabilizada, a produção quase duplicou nos últimos anos para as atuais 25 toneladas devido ao aumento da produtividade. Mas o que tem de especial este alho praticamente desconhecido no continente? A conferência ‘Características do Alho e Produção’, organizada no âmbito deste Festival juntou vários especialistas que traçaram a radiografia desta cultura na região. Adelaide Mendes, do IAMA (Instituto da Alimentação e Mercados Agrícolas) referiu que alho é cultivado na ilha ancestralmente, dadas as condições edafo-climáticas propícias à produção. E falou das suas características: “É um alho grande, com cabeças de cerca 25 a 45 mm, de 10 a 16 dentes, de cor vermelho arroxeado, com cabeças a pesar entre 25 a 40 gramas. Tem sabor e cheiro intenso mesmo sem ser quebrado, mas é muito suave depois de cozinhado”. A baixa pluviosidade e o ph neutro dos solos são apreciados pela cultura, que também prefere locais com boa exposição solar e abrigados de ventos fortes. A plantação ocorre entre dezembro e janeiro, com a colheita e secagem a ocorrer a partir do mês de junho.
Esta técnica falou ainda da candidatura à certificação IGP em curso, um processo que está a demorar pela falta de organização da produção (é necessário que uma organização de produtores fique a gerir a IGP) e que, no seu entender, é essencial para a proteção do nome e da origem geográfica deste produto.
Esqueça a farmácia!
Nutritivo e com propriedades antioxidantes, o alho é reconhecido como um produto saudável e com efeitos quase medicinais. A ciência parece concordar. Graça Silveira, professora na Universidade dos Açores, não tem dúvidas da capacidade do alho para curar algumas doenças. “O alho é sem dúvida nutracêutico [produto nutricional com alegado valor terapêutico, fusão entre as palavras nutritivo e farmacêutico], o que se deve à alicina, a substância responsável pelo odor forte. Ora, o alho da Graciosa é especialmente rico em alicina e a capacidade antioxidante é muito superior nas ilhas vulcânicas. A alicina neutraliza os radicais livres e existem estudos que provam que inibe o crescimento de células cancerígenas, para além da capacidade de reduzir o colesterol e atividade antimicrobiana, ou seja, a capacidade de matar bactérias”, revela esta especialista.
Veja a reportagem completa na edição de março da revista Vida Rural
O culto pelas flores naturais do Arquipélago dos Açores tem reflexos numa expressão artística peculiar: as flores artificiais. Esta arte, com reminiscência na vida conventual do séc. XVII, atingiu um perfeccionismo notável mercê da dedicação das freiras, executantes exímias. Para o efeito, utilizavam matérias acessíveis, nomeadamente o papel, o pano, a cera, o miolo de figueira, casca de cebola e a escama de peixe. Ainda hoje é frequente a utilização de flores artificiais em ornamentos de motivação religiosa, destacando-se entre elas as flores de escama, como precioso elemento de decoração laica.
Leve consigo, como recordação palpável, uma FLOR cuidadosamente trabalhada por mãos delicadas.
Em São Miguel, as primeiras referências a presépios remontam ao século XVI, por influência da fixação na ilha da Ordem dos Franciscanos. Porém, é no século XVII que aparecem as primeiras “lapinhas”, confeccionadas pelas freiras nos conventos, decoradas com minúsculas conchas e flores artificiais de seda, penas, escamas de peixe, cera, papel e algodão, de onde sobressaem figurinhas de barro representando a Sagrada Família.
O século XVIII assistiu a um maior brilho e expansão dos presépios de lapinhas em S. Miguel, sobretudo devido à influência de escultores continentais, como Machado de Castro, sendo possível encontrar, ainda hoje, vários exemplares de “lapinhas” dessa época, em igrejas e casas particulares. Contribuindo para a sua decoração, é de realçar a produção de flores artificiais, ou “flores de freiras”, nos conventos, a qual teve grande desenvolvimento nesse século, tendo sido o antigo Convento de Santo André um dos locais onde a arte decorativa cresceu e se aperfeiçoou de forma mais notável.
Quanto às figuras de barro para os presépios eram modeladas localmente, na sua maioria, por artesãos anónimos. É neste período de valorização e difusão dos presépios que surge, no núcleo sede do Museu Carlos Machado, a “lapinha” do coro alto do antigo Convento de Santo André. Inserida numa maquineta de madeira, com porta de vidro à frente, e embutida na base do altar do Senhor dos Passos, permite uma narrativa alargada, revelando em planos separados o Nascimento do Menino Jesus na Gruta de Belém, a Aparição do Anjo aos Pastores, a Adoração dos Reis Magos, a Apresentação do Menino no Templo, a Degolação dos Inocentes e o Baptismo de Jesus. Para além das várias figuras de barro, apresenta também diversos motivos ornamentais, dos quais destacamos as pequenas conchas e as inúmeras flores secas e artificiais, elementos estes que contribuem para um exuberante quadro de cor e expressão.
No século XIX os presépios passaram para o domínio da arte popular e, em São Miguel, as “lapinhas” continuam a produzir-se em espaço doméstico e a título particular, coexistindo com os característicos “Altares do Menino Jesus.” De salientar que essas “lapinhas” permaneciam em exposição todo o ano, colocadas em cima da cómoda do quarto de cama.
Com a fundação de fábricas onde o barro era cozido, vidrado e pintado, na vila da Lagoa, na segunda metade do século XIX dá-se a expansão e aperfeiçoamento dos bonecos de presépio, que passam a ser produzidos com a técnica de molde. Nesta arte popular, destacamos a preocupação dos artífices em representar não só as personagens típicas do presépio, mas também cenas do quotidiano, como a matança do porco, a mulher na fonte, procissões e várias figuras, nomeadamente foliões, mulher de capote e capelo, homem de carapuça, padre, camponês, pescador, ou bandas de música, entre outros. Actualmente, artesãos locais continuam a dedicar-se, com empenho e preciosa habilidade, à produção de “lapinhas”, em maquinetas ou em redomas, contribuindo para manter viva uma das mais belas demonstrações da religiosidade do povo açoriano. [SFS]
O cagarro (Calonectris diomedea) é a ave marinha mais abundante dos Açores. Juntam-se em colónias situadas nas falésias costeiras e ilhéus, que chegam a reunir centenas de aves. Os seus cantos nocturnos são muito peculiares, alguns parecidos com o choro humano. É uma das aves mais antigas que existe à superfície da Terra e pertence à família dos Procellariidae. A maior concentração mundial de cagarros ocorre nos Açores, da subespécie C.d. borealis, mas devido a ser muito vulnerável a predadores terrestres e às actividades do homem, esta espécie está em regressão a nível mundial, sendo muito importante garantir a sua protecção.
Os cagarros são aves pelágicas, ou seja, são aves marinhas adaptadas para a vida no alto mar, a coloração da sua plumagem é escura por cima e por baixo é clara, a cauda é preta e a cabeça é cinzenta-acastanhada, as asas e o dorso são castanhos por cima. O bico é amarelo e forte, com a extremidade mais escura, e as patas e pernas
são curtas e rosadas. Alimentam-se de peixe, lulas e crustáceos. Podem atingir os 40 anos de idade.
Em Março, depois de passarem alguns meses nos mares do Sul, regressam aos Açores para iniciarem um período reprodutor de oito meses, geralmente no mesmo local do ano anterior. Reproduzem-se em colónias situadas nas falésias costeiras e ilhéus, que chegam a reunir centenas de aves. Mas o cagarro é fiel, cada casal mantém-se, geralmente, para toda a vida. (…)
Os Açores são mundialmente a zona mais importante para o cagarro, que está protegido por leis nacionais e internacionais (Convenção de Berna– Anexo II, Directiva Aves-Anexo I e Decreto-Lei n.º 140/99 de 24 de Abril). É proibido capturar, deter, ou abater ilegalmente estas aves e destruir ou danificar os seus habitats. (…) in Revista Vidália nº 22
Para saber mais: http://terralivreacores.blogspot.com/search/label/cagarro
Em Outubro ou Novembro os jovens cagarros iniciam a sua migração e orientam-se aparentemente pelas estrelas, mas ao iniciarem o seu primeiro voo, principalmente em noites nubladas, são atraídos e encadeados pelas luzes das povoações e automóveis sendo muitos mortos por colisão e atropelamento.
Outro factor que pode ser perigoso para esta espécie está relacionado com as marés vivas que, aliadas aos ventos frescos, podem fazer com que uma ave excepcionalmente dotada para a vida marinha, possa encontrar no mar, um dos seus obstáculos na sua tentativa de migração.
O que deve fazer caso encontre um cagarro:
• Aproxime-se lentamente do cagarro, usando luvas;
• Com calma e segurança cubra o corpo do cagarro com um casaco, uma
manta ou uma toalha;
• Sem o magoar, segure o cagarro pelo pescoço e pela cauda, de forma a
envolver todo o seu corpo;
• Coloque-o numa caixa de cartão, com cuidado;
• Mantenha-o na caixa durante a noite, em local tranquilo e escuro;
• Liberte o cagarro na manhã seguinte, junto ao mar, pousando-o com
cuidado no chão.
Não se preocupe se a ave levar algum tempo a reagir e a voar para o
mar, pois ela continuará a sua viagem quando se sentir preparada.
O que não deve fazer:
• Não se aproxime da ave quando não sabe exactamente como proceder;
• Não segure a ave por uma asa ou por ambas as asas, nem permita que
ela abra as asas enquanto a manipula, pois esta ficará cada vez mais
agitada;
• Não dê água, alimentos ou medicamentos;
• Não atire a ave ao mar, pois ela não voará imediatamente quando for
lançada, podendo ficar incapacitada de voar;
• Nunca force a ave a ir para o mar, ela seguirá a sua viagem quando
se sentir em condições.
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